O Projeto "Missões Permanentes" da Diocese de
Tianguá- CE, em sintonia com os apelos da CNBB,
chega finalmente na Região Norte desta Igreja
particular. Depois de uma maratona de evangelização
nas cidades serranas que compreendem as regiões
centro e sul, chegou a vez do litoral. Desde o final
do ano passado, estamos vivendo uma verdadeira
efervescência missionária em nossas diversas
comunidades como há um bom tempo não víamos(...)
Os incontáveis encontros, reuniões e planejamentos
que se estenderam mês a mês, semana após semana, num
trabalho árduo e meticuloso (fica aqui a nossa
admiração e reconhecimento ao companheiro Fábio
Melo, articulador desse projeto) alavancaram um
processo "avexado" de formação e conscientização dos
nossos leigos e leigas, para que assumam a condição
de missionários na comunidade. Tarefa árdua, mas
necessária!
Fui um dos formadores desta pré-missão e pude
perceber em cada semblante, um olhar ávido e sedento
de conhecimento, de aprofundamento e acima de tudo,
de entusiamo pela missão. Crianças, jovens e idosos
se aglomeravam nos auditórios e salões paroquiais
para ouvir atentamente as preciosas orientações
bíblico-catequéticas e pastorais que eram
ministradas no afã de compreenderem, em
profundidade, o verdadeiro sentido do espírito
missionário e ao mesmo tempo, tentar sanar possíveis
deficiências doutrinais, herança de uma catequese
insuficiente em tempos não muito distantes. Aos
poucos a cidade foi ganhando um colorido especial
com a vitalidade dos missionários e com o
aparecimento dos inúmeros pólos de evangelização,
expressão viva e concreta de uma Igreja
descentralizada e ministerial. Projeto audacioso, já
que estamos nos referindo a uma complexa e
desafiadora realidade urbana. Camocim é uma cidade
interiorana com traços e características claras dos
grandes centros urbanos.
A pergunta mais relevante, contudo, que devemos
fazer neste momento é a seguinte: "As missões
conseguirão ter um caráter PERMANENTE ou se
limitarão a uma rápida e movimentada semana de
atividades, celebrações e visitas às famílias? É
difícil prever os frutos dessa empreitada que
estamos desde já vivenciando, mas podemos e devemos
emitir alguns sinais de alerta importantes para
evitarmos possíveis desilusões. Como podemos pensar
em missões permanentes se ainda não temos uma
consciência missionária em nossa paróquia? A falta
de um processo sistemático e continuado de formação
em nossas comunidades ainda é uma das questões mais
delicadas que precisa ser discutida e aprofundada se
realmente quisermos imprimir um caráter permanente
às missões. Estamos diante de uma crise pastoral que
nos preocupa grandemente. Temos uma quantidade
significativa de movimentos, isso é verdade, mas em
sua grande maioria apáticos pastoralmente. Reúnem-se
periodicamente de forma isolada e fragmentada,
fechados muitas vezes em seu universo devocional,
completamente inertes na atuação missionária e ainda
distantes daquilo que almejamos em nossas
prioridades pastorais, salvo exceções. Diante de
tantos desafios internos, como pensar num processo
permanente de missões? Sou esparançoso e acredito na
força libertadora de Jesus Cristo, que nos
impulsiona e nos conduz nos caminhos da história.
Quem sabe um dia não precisaremos de nenhuma dessas
mobilizações para nos lembrar algo que deveríamos
ter aprendido nos primeiros encontros catequéticos
de nossa vida: SOMOS MISSIONÁRIOS PORQUE SOMOS
BATIZADOS!
Não nos esqueçamos de que só seremos autênticos
discípulos e missionários de Cristo se estivermos ao
lado dos que sofrem na sociedade, não numa atitude
de assistencialismo, mas de amor e profetismo,
anúncio e denúncia. O rosto de Jesus está
desfigurado na vida sofrida e miserável de tantos
irmãos e irmãs que são vítimas de um sistema
excludente e desumanizador. A missão consiste em ir
ao mundo dos pobres para despertar a esperança e a
irrupção do Reino de Deus. O missionário deve
anunciar sempre a chegada da força de Deus, que vem
revestir a fraqueza dos fracos deste mundo. Sua
palavra e testemunho podem converter pessoas
desesperadas, despertar consciências que pertencem
ao mundo privilegiado, suscitar vocações verdadeiras
para servir e exercer de verdade a Eucaristia na
dimensão do “lava-pés”. O missionário é como um
arauto das conversões, por isso deve estar preparado
para a perseguição, decorrente de seu olhar corajoso
e ousado.
Não deixemos que esta grande semana missionária se
torne apenas uma lembrança de um acontecimento
passado, sem uma salutar continuidade que tanto
almejamos. Oxalá, ela se transfigure num estado
permanente de vida, fé e serviço.